1 de ago. de 2018

Excertos: "A semente que semeais, outro colhe..." [8º]


Hoje trabalhamos com excertos do livro "História da Riqueza do Homem" de Leo Huberman, para compreendermos a situação dos trabalhadores durante a Revolução Industrial.

Veja abaixo os trechos selecionados, todos do capítulo "A semente que semeais, outro colhe..."


"A semente que semeais, outro colhe..."

Excerto 1

[...]

É fato bem conhecido que as estatísticas podem provar qualquer coisa. Nunca nos proporcionaram um quadro mais falso do que o relativo ao período de infância da Revolução Industrial na Inglaterra. Toda tabela de números mostrava progressos tremendos. A produção de algodão, ferro, carvão, de qualquer mercadoria, multiplicou-se por dez. O volume e o total de vendas, os lucros dos proprietários - tudo isso subiu aos céus. Lendo tais números ficamos surpreendidos. A Inglaterra, ao que tudo indica, devia ter sido então o paraíso que os autores de canções mencionam sempre. Foi, realmente - para uns poucos.

Para muitos, podias ser qualquer coisa, menos um paraíso. Em termos de felicidade e bem-estar dos trabalhadores, aquelas estatísticas róseas diziam mentiras horríveis. Um autor mostrou isso num livro publicado em 1836: "Mais de um milhão de seres humanos estão realmente morrendo de fome, e esse número aumenta constantemente... ... É uma nova era na história que um comércio ativo e próspero seja índice não de melhoramento da situação da classe trabalhadora, mas sim de sua pobreza e degradação: é a era a que chegou a Grã-Bretanha" (P. Gaskell).

[...]

Havia, na realidade, duas Inglaterras. Disraeli acentuou isso em sua Sybil (1895): "Duas nações; entre as quais não há intercâmbio nem simpatia; que ignoram os hábitos, ideias e sentimentos uma da outra, como se habitassem zonas diferentes, são alimentadas com comida diferente, têm maneiras diferentes, e não são governadas pelas mesmas leis"
"O senhor fala de...", dissse Egremont, hesitante.
"DOS RICOS E POBRES"

HUBERMAN, Leo. História da Riqueza do Homem. Rio de Janeiro: Zahar, 1976 (12ª ed.), p. 188.


Excerto 2


[...]

Temos uma ideia de como era desesperada a situação pelo testemunho de um deles, Thomas Heath, tecelão manual:

"Pergunta: Tem filhos?

"Resposta: Não. Tinha dois, mas estão mortos, graças a Deus!

"Pergunta: Expressa satisfação pela morte de seus filhos?

"Resposta: Sim. Agradeço a Deus por isso. Estou livre do peso de sustentá-los, e eles, pobres criaturas, estão livres dos problemas desta vida mortal"

[...]

HUBERMAN, Leo. História da Riqueza do Homem. Rio de Janeiro: Zahar, 1976 (12ª ed.), p. 189.


Excerto 3

[...]

Os fiandeiros de uma fábrica próxima de Manchester trabalhavam 14 horas por dia numa temperatura de 26 a 29ºC, sem terem permissão de mandar buscar água para beber. Estavam sujeitos às seguintes penalidades ou multas:

Por deixar a janela aberta ........................................................ 1s. 0d.
Por estar sujo ........................................................................... 1s. 0d.
Por se lavar no trabalho ........................................................... 1s. 0d.
Por consertar o tambor com gás aceso .................................... 2s. 0d.
Por deixar o gás aceso além do tempo .................................... 2s. 0d
Por assobiar ............................................................................. 1s. 0d.

[...]

HUBERMAN, Leo. História da Riqueza do Homem. Rio de Janeiro: Zahar, 1976 (12ª ed.), p. 190.


Excerto 4

[...]

Perante uma comissão do Parlamento em 1816, o Sr. John Moss, antigo capataz de aprendizes numa fábrica de tecidos de algodão, prestou o seguinte  depoimento sobre as crianças obrigadas ao trabalho fabril:

"Eram aprendizes órfãos? - Todos aprendizes órfãos.

"E com que idade eram admitidos? - Os que vinham de Londres tinham entre 7 e 11 anos. Os que vinham de Liverpool, tinham 8 a 15 anos.

"Até que idade eram aprendizes? - Até 21 anos.

"Qual o horário de trabalho? - De 5 da manhã até 8 da noite.

"Quinze horas diárias era um horário normal? - Sim.

"Quando as fábricas paravam para reparos ou falta de algodão, tinham as crianças, posteriormente, de trabalhar mais para recuperar o tempo parado? - Sim.

"As crianças ficavam de pé ou sentadas para trabalhar? - De pé.

"Durante todo o tempo? - Sim.

"Havia cadeiras na fábrica? - Não. Encontrei com frequência crianças pelo chão, muito depois da hora em que  deveriam estar dormindo.

"Havia acidentes nas máquinas com as crianças? - Muito frequentemente."

[...]

HUBERMAN, Leo. História da Riqueza do Homem. Rio de Janeiro: Zahar, 1976 (12ª ed.), p. 191.

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